Carnaval 2012

São João Del Rei: alma barroca, sagrada e profana

 * Crônica de Maria do Carmo Freitas (KK Freitas)

     Sexta-feira depois do carnaval, é dia de trocar os cds dos compositores Jota Dangelo, Agostinho França, e outros tantos da nova geração de sambistas, pelos cds com os motetos, cânticos, matinas, laudes, e outras composições sacras dos são-joanenses como Padre José Maria Xavier e Maestro Ribeiro Bastos. É dia da primeira Via Sacra na rua, dia de contemplar a melodia dos dobres do sino dos Passos ao invés de tamborins, repeniques e tantãs de outrora. Eu sou são-joanense, adoro ser, minha alma é barroca, sagrada e profana!

     Profano quer dizer tudo que não é sagrado, aquilo que é popular, da nossa gente, como as manifestações carnavalescas. Esta vertente tem raiz no fim do século XIX com os Ranchos ‘Boi Gordo’ e ‘Qualquer Nome Serve’, e mais tarde com as Escolas de Samba no século XX. Mas é chegado o tempo do sagrado, da outra vertente mais tradicional, vinda do século XVIII com a Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. É a ocasião propícia do erudito, de se recolher contido e não mais de exibição, de desfrute, exaltação, hoje é dia também de Encomendação de Almas!

     Fantasias e abadás que ontem nos vestiam dão lugar às opas roxas da Irmandade dos Passos. No lugar do bloco com seus coloridos estandartes, o cortejo da Via Sacra com sua cruz de madeira escura. As mãos que lançavam serpentinas, esguichavam espumas e jogavam confetes, agora carregam lanternas de prata e velas acesas. Aquele músico que comandava a eufórica bateria no sopro estridente do apito, passa a integrar a orquestra soprando passivamente as notas graves de seu trompete.

     A imagem mágica da performance da bateria do ‘Unidos da Cambalhota’ nas escadarias da Matriz dá passagem para o desfile piedoso dos irmãos que irão refazer a via crucis de Jesus. No primeiro ato os sinos mudos nas torres apenas olham, e no segundo momento são protagonistas da devoção cristã (“pois o sineiro é o ritmista de São João!”). A paixão como sentimento que correu solta e inocentemente desavergonhada no coração dos foliões tem seu signo totalmente transformado, refletindo a dor, sofrimento e resignação pelo qual passou Nosso Senhor.

     Eu sou são-joanense, do carnaval à quaresma, do samba à meditação, do enredo à oração, do ‘pular carnaval’ à contemplação, da alegria à ponderação, da razão ao coração!

     Recolha-te folião, o tempo agora é de procissão, de terço na mão e não mais um copo de cerveja. Revele sua fé à luz de um lampião, abra sua alma, reconheça seus tropeços nestas ruas históricas, e peça perdão. Mas também perdoe porque todos nós às vezes sambamos na contramão e atravessamos no antigo refrão. Somos enfim todos barrocos, vivemos ainda debaixo destas telhas coloniais, cercados por paredes de adobe, mesmo que tenhamos deixado a terrinha, seguimos sagrados e profanos, são-joanenses!

 

    
     

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